Política da identidade: uma brincadeira séria

Faça-se uma brincadeira sobre marcadores sociais de diferença e desigualdade ao contemplar os e as líderes dos principais partidos da atual contenda eleitoral. Aviso à navegação: não é ciência social, não é para levar a sério. Ou será?

Faça-se uma lista dos e das dirigentes partidários presentes no parlamento e concorrentes nesta eleições de 2022. (Rui Tavares entre parênteses, pois não é claro — politicamente — que se possa considerar que o Livre está presente no parlamento). Faça-se também uma lista de categorias identitárias relevantes nas discussões públicas em Portugal. Atribua-se uma bola vazia (“branca”) quando se trata de uma expressão hegemónica, não minoritária e/ou histórica e estruturalmente discriminada. Atribua-se, pelo contrário, uma bola cheia (“preta”) quando se trata de uma expressão não-hegemónica, minoritária e/ou histórica e estruturalmente discriminada.

Algumas explicações são necessárias. Primeiro: “classe” é sempre um berbicacho. Para facilitar, a abordagem é aqui presentista (não liga muito às estórias de origem social de família) e leva muito em conta o status, sobretudo o capital cultural. Por exemplo, R. Tavares escreve por vezes sobre origens sociais modestas, mas o seu capital cultural é obviamente altíssimo; J. Sousa manteve no seu percurso uma identificação, que é inclusive positiva, com a classe trabalhadora.

Segundo, orientação sexual e identidade de género estão agregadas apenas porque ambas necessitam de, por um lado, auto-identificação (não se atribui externamente uma identidade hetero ou homo, ou cis ou trans, a alguém) e, por outro, de assunção (coming out) de modo a serem relevantes.

Terceiro, de lado ficaram aspetos como nacionalidade, religião, deficiência e outros. A nacionalidade, porque os candidatos têm de ser cidadãos e cidadãs de Portugal. A religião, porque em Portugal tem sido mais relevante a divisão entre católicos praticantes, não-praticantes e pessoas genericamente agnósticas ou a-religiosas. Mesmo assim, é relevante que tanto F. Santos quanto A. Ventura façam questão de se assumir como católicos e praticantes e que não haja nenhum/a líder que se tenha dito protestante/evangélico, muçulmano/a, judeu/judia, hindu ou budista, por exemplo. A deficiência, porque a categoria é extremamente heterogénea, embora se possa, obviamente, verificar que nenhum/a líder apresenta ou diz ter uma “deficiência”.

Conclusão:

Líderes com uma bola cheia: 4 em 9 (Costa, Martins, Sousa e Real)

Líderes com mais do que uma bola cheia: 0

Categoria sem nenhuma bola cheia: orientação sexual / identidade de género.

Total de bolas cheias: 4 em 36.

E pronto, fica aqui esta brincadeira.

Tentando desempacotar coisas desde 1960

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