Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso no atraso que causou na despenalização do aborto e da sua posição sobre o assunto.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso na sua participação, como único representante político de relevo, numa manifestação contra a igualdade no acesso ao casamento civil.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso no comentador político de anos e anos e anos na televisão, e de como a sua candidatura à presidência da república apanhou boleia dessas autênticas “conversas em família”.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso na retórica dos “afetos” e de como isso despromove a presidência para um patamar entre o monárquico e o pater familias.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso em como a retórica dos afetos tem uma perigosa proximidade com o populismo e com a ausência de escolha políticas claramente enunciadas.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso em como essa estória dos afetos faz pendant com os anos de comentador televisivo e com a cultura da lamechice e da falsa solidariedade e humanidade de tantos programas de “interesse humano” na nossa cultura mediática contemporânea.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso em performances de servir comida a sem-abrigos e na solidariedade com as vítimas de Pedrógão (sem dúvida necessária, not the point), mas vejo a ausência de posição face aos flagelos da violência doméstica e de género, do racismo ou da violência policial — com o caso do SEF como protagonismo desse silêncio e dessa afetividade seletiva. São escolhas estéticas e simbólicas que marcam culturas de esquerda e direita, visões do mundo sobre a desigualdade, o papel do estado social, ou a caridade individual.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso também, claro, em como possibilitou a Geringonça, apoiou a manutenção dos governos PS e não criou — até há pouco — problemas à estratégia de combate à pandemia. Eis uma coisa boa, mas que serviu para anestesiar largos setores da esquerda, como se vê pelas intenções de voto de eleitores do PS.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso na desistência democrática do PS ao apoiá-lo sem o apoiar, ao demitir-se de ver na presidência da república uma representação de valores, necessariamente ideológicos, apostando antes na tática de deixar eleger quem menos o perturbe na governação.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso na dificuldade que tudo acima escrito cria nos outros candidatos e nas outras candidatas em contrariarem este fenómeno mediático-afetivo-publicitário e a muitíssimo política aparente ausência de… política.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso nos danos que este tipo de fenómeno faz à democracia — mesmo que aparentemente possa ser uma antídoto para a extrema-direita, tese ainda por demonstrar — , cujos primeiros sinais são o populismo anti-democrático da extrema-direita, o esvaziamento da direita democrática e a desistência ideológica do PS.

Não digo que Marcelo Rebelo de Sousa seja a causa. Mas fez escolhas políticas, racionais, estratégicas. Contribuiu. Quis agir assim, quis criar a imagem que criou. E o produto que criou é imbatível num mercado com pouquíssima proteção dos consumidores….

Quem vive na ilusão de que Marcelo Rebelo de Sousa tem sido uma garante de estabilidade (e podendo até ter alguma razão, se bem que apenas num plano instrumental, o de “aguentar governos”), vive no escuro quanto aos danos que o seu esvaziamento político da presidência (que, na realidade, é aparente, pois trata-se de uma naturalização do conservadorismo) pode causar à democracia.

Quem goza com a “múmia” cavaquista, as suas aparições e a sua eterna postura de não-político acima da política, não parece conseguir ver a enorme escolha política que é a substituição de escolhas políticas assumidas pelos famigerados “afetos”. Em ambos os casos, trata-se duma escolha típica da direita, do conservadorismo e do reacionarismo: a criação da ilusão de que a política não existe, de que as ideologias são maléficas, de que há uma unidade nacional imanente — hoje criada pela coexistência “igualitária” de espectadores de televisão.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso em quanto os outros candidatos e as outras candidatas estão prisioneiros da receção popular do fenómeno, hesitando na obrigação de o escrutinar e criticar, em vez de o deixarem numa caixa neutra de intocabilidade.

Marcelo não é um tabu. Fez-se tabu, não o é nem pode sê-lo.

Tentando desempacotar coisas desde 1960

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