Mas não é absurdo e irracional?

Ao lado do meu prédio há um outro igualzinho, já que o bairro foi desenhado de raiz. Nesse prédio há um apartamento igualzinho ao meu. Está à venda por €550.000, num anúncio da imobiliária que usa um balão de ar quente (ah…) como logotipo. Leram bem: mais de meio milhão de euros.

Ora bem. Trata-se de um prédio sem elevador. De um prédio sem garagem. De um andar de 90 metros quadrados. Sem aquecimento central, ao contrário de alguns apartamentos no meu prédio. Também ao contrário destes, não houve nenhuma obra para criar armários embutidos, para aproveitar duas casas de banho em vez de uma ou para transformar uma delas em parte de uma suite, entre outros melhoramentos.

Apesar de estes apartamentos terem uma varanda bem simpática, o anúncio menciona um “terraço”. Apesar de o bairro ser bastante simpático e ter sido desenhado de raiz nos finais dos anos cinquenta, não se trata, ao contrário do que o anúncio diz, de um bairro “de luxo”. Em qualquer país da UE a oriente da Espanha, incluindo-a, seria um banal bairro de classe média. E sofre daquele desmazelo tão lisboeta (às vezes “patine” charmosa, sim, mas só em dias de outono ou primavera, graças ao clima, tornando-se tudo assustador no cinzento do inverno ou na canícula, com os folhetos publicitários voando e amontoando-se), com canteiros abandonados e alguns prédios horrendos, atamancados, e até abarracados, que foram construídos (“pouco” legalmente?) nos espaços vagos inicialmente previstos para terem árvores. É certo que, estando no planalto de Lisboa, goza de espaços amplos e funcionais e está muito bem servido por duas linhas de metro rapidamente acessíveis. Mas, e comparando de novo com muitas europas, que tem isso de especial?

Bom, tem. Por más razões. Porque muita, demasiada gente vive em condições deploráveis, sem condições ao nível de transportes, ao nível térmico (sofrendo de frio, calor e humidade), de distância do centro da cidade ou dos locais de trabalho, de qualidade de construção, de espaço, e com muita segregação social. É face a esta realidade que, por comparação, este apartamento desenhado há décadas para funcionários públicos remediados (o bairro tem tipologias de prédios e casas para 3 ou 4 níveis de funcionários, e digo isto sem nenhum elogio ao regime da época, apenas como facto) pode ser anunciado como de luxo e por meio milhão de euros.

E, depois, há o que verdadeiramente conta, para lá da ausência escandalosa e revoltante de verdadeira política de habitação (um dos GRANDES problemas sociais de Portugal): a especulação, a gentrificação e todos os processos que têm sido discutidos em torno das transformações de Lisboa nos últimos anos, consequência de escolhas políticas face ao “mercado” ou da falta delas. Mesmo com a negociação do preço, alguém comprará aquilo. Já agora: muito, mas mesmo muito acima duma avaliação do meu apartamento, que fiz há pouco. Apartamento que está em melhor estado e com mais qualidades, e mesmo assim com necessidade de melhorias.

Compreendo e tento acompanhar as explicações, críticas e fundamentadas, que vêm dos conhecedores de economia, urbanismo ou geografia. Mas não consigo conter a sensação de absurdo, de algo que, mesmo quando me dizem que tem uma racionalidade própria, a do mercado, se me afigura como irracional. Assustadoramente irracional. Quando imagino a agente imobiliária mostrando aquilo a potenciais compradores, mantendo uma cara séria ao mencionar o preço, e até fazendo elogios ao “achado”, bom, fico perplexo.

Tentando desempacotar coisas desde 1960

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