Lusocatolicismo

Quando, em 2018, o bispo católico do Porto disse que “os abusos de menores [dentro da Igreja] foram um fenómeno fundamentalmente anglo-saxónico” (in Público), estava a dizer algo semelhante ao discurso excecionalista sobre o colonialismo português. Eu já desconfiava que existiria este “Lusocatolicismo”, equivalente religioso do Lusotropicalismo (e o catolicismo era, aliás, uma das componentes da mitologia lusotropicalista).

Acontece que a “cultura organizacional” da igreja católica é certamente mais determinante do que eventuais variações nacionais. O cristianismo na sua versão católica é a única religião que se organiza numa instituição multinacional, com hierarquia e cadeia de comando rígidas, leis próprias que durante muito tempo vigoraram em plena autonomia e sem escrutínio externo (algo que continua acontecendo de forma atenuada nos países que tenham concordata), que exerceu poder secular durante séculos, ou que tem um território reconhecido como estado. Todo um outro campeonato, como se costuma dizer, por comparação com outras religiões.

O género e a sexualidade são um pilar central não só da moral católica e do seu papel na construção das sociedades tal como as conhecemos, mas também um pilar central da organização. Não é a única religião onde só os homens podem aceder ao sacerdócio, mas é a que tem resistido mais à inclusão das mulheres. Noutras religiões ou as mulheres já acedem desde há algum tempo (como em muitas igrejas cristãs protestantes, no judaísmo reformista, ou nas religiões de matriz africana) ou não existe a noção sacralizada de sacerdote (nem rabinos/as judeus/judias nem mulás muçulmanos são sacerdotes, mas sim especialistas jurídicos e guias espirituais).

Além deste domínio da masculinidade — à semelhança das forças armadas ou da esfera política no passado — na versão católica do cristianismo é imposto o celibato. Nem o cristianismo ortodoxo ou protestante, nem o judaísmo ou o islão impõem tal coisa. Mas, repito, não se trata apenas de um ideal moral, digamos, mas sim de uma regra da organização.

Todas estas características fazem da igreja católica uma organização patriarcal. Um patriarcado sui generis, pois ao domínio patriarcal dos homens, que já contém em si o potencial do abuso de mulheres e menores como no resto da sociedade, junta-se a imposição do celibato e duma moral sexual repressiva, culpabilizadora e cujo controlo constitui uma obsessão policiadora, como por exemplo na relação confessional.

A separação entre estados e igrejas, a laicidade das sociedades ocidentais posteriores às revoluções modernas, remeteram a igreja católica ainda mais para um certo acantonamento enquanto organização e instituição que se protege de forma tribal. Recentemente surgiram denúncias de abusos sexuais, e exigências de reparação, em linha com os valores contemporâneos sobre autonomia sexual reivindicados sobretudo por quem foi historicamente oprimido pelo patriarcado — mulheres, crianças e jovens, homossexuais. Nalguns contextos nacionais foram criadas comissões independentes para investigar o abuso sexual.

É neste contexto que seria de esperar reações como a referida no início. Mas a única coisa que pode ser vista como especificamente nacional é a generalizada — não apenas na igreja — hesitação e demora na denúncia de abusos. É transversal à sociedade portuguesa. Nem sequer as especificidades do catolicismo português — a sua inclinação mariânica, a preferência pelo culto dos santos e padroeiros locais, por exemplo — podem justificar alguma “excecionalidade”. Como instituição hierárquica, multinacional, auto-regulada, patriarcal, e focada numa ideologia específica sobre o sexo, o género e a conjugalidade, a cultura organizacional da Igreja Católica sobrepõe-se às diferenças nacionais, cria homogeneidade.

Em suma: todo o bom senso sociológico indica que em Portugal a incidência do abuso de crianças, jovens e mulheres por homens sacerdotes não terá uma dimensão substancialmente diferente de outras paragens. E os passos aflitos que estão a ser dados no sentido da investigação nada têm de comparável com a comissão independente, a sua constituição e metodologia, no caso francês.

E o que torna o caso da igreja católica específico e merecedor de atenção especial não é uma qualquer perseguição à religião. Também seriam de esperar reações que dizem o clássico “não é só na igreja católica!” O que torna o caso especial é que os crentes confiam nos sacerdotes, nos valores que a sua religião transmite e na ideia de uma pureza para lá dos horrores do Mundo. Para os não-crentes, um exemplo similar: esperariam do vosso psicoterapeuta manipulação e abuso?

Por fim, a questão do procedimento: tudo indica existir uma vontade na igreja católica em Portugal no sentido de ser ela a controlar o eventual processo de investigação, no que seria um vrnhec investigativo: “OK, faça-se, mas não se faça muito e tratamos nós disso”. A comissão deverá, sim, seguir o exemplo francês, repassando a responsabilidade a um grupo independente e recorrendo fortemente às ciências sociais. E nunca esquecendo que, antes do compromisso religioso e eclesiástico, impera o compromisso com a comunidade e a cidadania. E a responsabilidade perante elas.

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Tentando desempacotar coisas desde 1960

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