Géneros de Gente

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Este trabalho de Hugo van der Ding fala por si próprio, naturalmente. Explicar o humor é sempre um exercício com pouca ou nenhuma graça. Ele é, porém, e neste caso, útil para uma exploração da linguagem e dos sentidos socialmente disputados em torno do género e da sexualidade.

“Género” é uma palavra polissémica na língua portuguesa. Pode querer dizer “género” no sentido sexual, apresentando-se mesmo, em contextos menos críticos, como sinónimo. Pode assumir o sentido que as ciências sociais e o feminismo lhe atribuíram — o de características socialmente atribuídas aos sexos. E pode, obviamente, assumir o sentido prosaico de “tipo”, “espécie” — de pessoa, de coisa, de produto artístico. Pode, ainda, assumir o sentido contido na frase idiomática “não faz o meu género”, isto é, não é da minha preferência, not my cup of tea.

Ao representar um casal de homem e mulher numa situação de casamento e com aquela legenda, é toda a discussão sobre orientação sexual e casamento entre pessoas do mesmo sexo que vem ao de cima — ou que está no reverso do desenho; assim como a discussão sobre o género, no sentido das definições sociais de feminilidade e masculinidade; e ainda as discussões sobre a identidade e a expressão de género, no que diz respeito às pessoas transgénero, transexuais, queer, não-binárias, etc.

Mas o artista fá-lo representando um homem e uma mulher parecidos, semelhantes, nos traços não só fisionómicos e expressivos, como, e sobretudo, na expressão de uma normatividade e duma normalidade socialmente reconhecidas e reconhecíveis — atingindo assim a caricatura dessa normatividade e dessa normalidade. É o sentido de género como “tipo” que é convocado.

Ora, ao convocar-se este sentido de género, todos os sentidos de “género” que são mais, digamos, politicamente debatidos e polemizados, ficam reduzidos a “tipos”. Esta banalização tem um paradoxal efeito positivo do ponto de vista político e da transformação social e cultural: não essencializa, não fecha em caixas identitárias, não petrifica. Como se dissesse: há gente de todo o género/tipo e gente do mesmo género/tipo junta-se, assim como se junta gente de géneros/tipos diferentes. E o género, no sentido “sexual”, é afinal nada mais do que um mero tipo.

De novo: estava lá tudo no “boneco”. Mas às vezes é preciso dar um empurrãozinho na interpretação.

PS: Este textozinho teria resultado melhor em inglês, pois seria iluminador, para anglófonos, perceber a polissemia portuguesa de “género”. Em inglês, gender, genre e type ou kind têm fronteiras semânticas claras.

PPS: Obrigado ao Paulo Côrte-Real por este desenho do Hugo, belíssimo presente de aniversário.

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Tentando desempacotar coisas desde 1960

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