“Fragilidade Branca”

[Crítica publicada no Público, 7 janeiro 2021]

Robin Diangelo caracteriza assim o que cunhou como fragilidade branca: “Tendo crescido com uma sensação de superioridade profundamente interiorizada, da qual não temos consciência (…) tornamo-nos muitíssimo frágeis em conversas sobre raça. Consideramos qualquer questionamento da nossa mundividência racial um questionamento da nossa própria identidade como pessoas boas, morais. Assim, encaramos qualquer tentativa de nos ligarem a um sistema de racismo como uma ofensa moral perturbadora e injusta. O mais pequeno stresse racial é intolerável — a mera sugestão de que ser-se branco tem um significado é muitas vezes o suficiente para desencadear uma panóplia de reações defensivas. Estas incluem emoções como a raiva, o medo e a culpa, e comportamentos como a altercação, o silêncio e o voltar costas à situação causadora de stresse” (pp 25–26).

O “nós” a que se refere é a (ainda) maioria demográfica branca nos EUA, ainda mais maioritária nos lugares sociais de poder, estatuto e influência. Nem a descrição do que entende por fragilidade branca nem este “nós” são alheios à sociedade portuguesa. O livro de Diangelo não é uma obra estritamente académica no campo de estudos sobre o racismo e não é um livro escrito a partir do “lugar da fala” de quem, e recorrendo a uma expressão idiomática estadunidense, “cresceu do lado errado da linha do comboio”. É um livro que assume a branquitude como identidade problemática, pois apresenta-se como neutra e representativa do universal, construindo-se e reproduzindo-se através da elisão e na negação quer das experiências dos grupos vítimas de racismo, quer do próprio racismo. De novo, algo que encaixa na perfeição na experiência portuguesa.

Seria injusto classificar este livro como de auto-ajuda? De facto, ele resulta da experiência da socióloga nas suas ações de formação sobre o racismo nas mais variadas instituições e contextos comunitários. Relata, dá exemplos e sistematiza essa experiência de confrontação das pessoas brancas com a sua fragilidade face às questões de racismo. E fornece sugestões, pistas e estratégias para a consciencialização da fragilidade branca e da branquitude, com o objetivo de as transformar. O livro está informado por uma sólida, ainda que implícita, teoria social; foi escrito por quem assume o seu privilégio branco (aquele que advém de ser branco, independentemente da classe social) e o seu racismo implícito; e partilha experiências de transformação da consciência social. Se o propósito é ajudar, tal é muito bem-vindo.

Diangelo não partilha, todavia e ainda bem, uma visão individualista e simplesmente moral do racismo, como algo que se ultrapassaria através de uma qualquer “terapia” ou de epifanias de tomada de consciência. Ela desmonta eficazmente a falácia do racismo como mero problema moral e sublinha o seu caráter histórico, estrutural e sistémico, bem como desautoriza cabalmente ideias circulantes como a de “racismo inverso” ou acusações como as que culpam o antirracismo pelo incremento do racismo. Uma vez mais, a aplicabilidade à sociedade portuguesa é evidente. A descoberta desta aplicabilidade constitui, aliás, uma das mais surpreendentes experiências na leitura do livro.

Mais negativa, ou entristecedora, será a reflexão do leitor português ou da leitora portuguesa sobre as diferenças entre o contexto estadunidense e o nosso. Em Portugal, além dos mesmos sintomas descritos pela autora, a fragilidade branca manifesta-se também de forma coletiva, identitária, nacional, pois uma conversa crítica sobre racismo questiona fundamentalmente uma narrativa nacional que nunca soube desligar-se da sua natureza colonial. Uma narrativa que foi reciclada mesmo em democracia. Este aspeto torna evidente que, além de iniciativas de formação como as da experiência profissional de Diangelo, e que são praticamente inexistentes entre nós, necessitamos de investimento do próprio estado na diversificação e reformulação da(s) narrativa(s). Não esqueçamos também que, e apesar do seu relativo sucesso, em Portugal não existem políticas de ação afirmativa (não inocentemente traduzidas como “discriminação positiva”) e uma crença oficial no universalismo republicano — sem dúvida um ideal a atingir e uma garantia fundamental para todas as pessoas — oculta e nega o reconhecimento de experiências específicas e sistémicas de discriminação, ao mesmo tempo que deixa o lugar do neutro universal coincidir com a branquitude.

O sucesso que “White Fragility” teve nos EUA ultrapassou mesmo o da excelente e riquíssima produção de estudos académicos, obras de ativistas, e literatura sobe o racismo produzidos naquele país. Conseguiu-o graças ao recurso a uma linguagem acessível, a uma explicação clara das premissas e conceitos usados, à exemplificação com casos concretos vividos pela autora, e ao seu posicionamento enquanto branca que passou por um processo de tomada de consciência. Estas qualidades como que conferem ao livro a capacidade de criar uma comunidade de leitores que se identificam no propósito comum da simultânea transformação social e pessoal.

Como será a receção portuguesa a este livro? Talvez a recente emergência de um movimento antirracista renovado e a intensificação do debate sobre racismo e antirracismo no espaço público estimulem a vontade de procurar ajuda. “Fragilidade Branca” será certamente um instrumento fulcral nesse processo. Talvez depois da sua leitura, mais e mais pessoas brancas portuguesas parem por um segundo para se perguntarem: Onde vive a maioria das pessoas negras? Em que trabalha a maioria das pessoas negras? Onde e como estuda a maioria das crianças negras? Como são tratadas pelos tribunais e pelas polícias as pessoas negras? Como dizer ao mesmo tempo que não há raças biológicas mas que há desigualdade racial? Que querem e não querem dizer as pessoas que afirmam “não ver raças”? Que querem dizer as pessoas que afirmam que o racismo é só uma questão moral de preconceito? Que querem dizer as pessoas que falam em racismo inverso como sendo equiparável ao racismo sistémico contra os negros? Que querem dizer as pessoas que acreditam nos mitos lusotropicalistas sobre o colonialismo português? Que querem dizer as pessoas que insistem na ideia de que não há racismo em Portugal — ou as que até saem à rua para fazer disso uma bandeira?

Em suma, perguntas sobre a fragilidade branca e os seus processos de negação, fuga e agressividade, como as que Diangelo elencou neste livro oportunamente traduzido para português europeu. Perguntas necessárias para começar a desconstruir a branquitude.

Tentando desempacotar coisas desde 1960

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