Escorpiões e rãs*

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As extremas-direitas nacional-populistas só não são parecidas no embrulho. Trump plasma-se numa certa América, LePen faz uma performance francesa, Bolsonaro apela a uma certa cultura popular brasileira, Erdogan namora o religioso, Putin repete o anti-cosmopolitismo. E Ventura aportuguesa.

Ventura articula várias características culturais portuguesas. Apresenta-se com um status académico e profissional prestigiante, não por acaso no Direito; não usa uma linguagem chocarreira por causa da tendência portuguesa para apreciar o “falar bem”; não aliena totalmente os que o rodeiam porque sabe que em Portugal os mundos sociais são apertados e muitas as dependências mútuas. Em suma, articula um certo tipo de “hipocrisia” nacional — a mesma a que depois se escapa, como o fazem os seus apoiantes, na violência assegurada pelo anonimato das redes sociais.

Mas se o embrulho muda, o conteúdo nem tanto. Certo, este adapta-se a questões locais circunstancialmente mobilizadoras dos ressentimentos reacionários: imigração ali, um grupo étnico aqui, uma ameaça externa acolá. Mas o conteúdo comum é o ataque ao que chamam de Sistema. Este “sistema” é apresentado como uma amálgama cacofónica de “corrupção”, “tachos”, “cunhas”, “políticos” (enquanto palavrão), e tudo o que possa mobilizar as massas revoltadas com injustiças mas que não têm disponível um pensamento político organizado numa ideologia emancipatória (como já tiveram no passado com o socialismo).

Todavia, se perguntarmos, por exemplo ao Chega, o que propõe como alternativa ao “sistema” — partindo do princípio lógico de que, se o problema é o dito, é porque haverá uma alternativa… sistémica — o silêncio é total. Os programas também nada dizem. Aliás, o que os programas dizem é a mais clara manutenção de um outro sistema, o da economia política reinante, de que estes partidos são defensores, não se apercebendo muitos adeptos e eleitores de quanto estão a ser enganados nesse plano.

O silêncio sobre o sistema alternativo que seria esperável que propusessem não é inocente. Ele permite que a política desta gente seja uma política da emoção do ressentimento, sem guião; e permite que sejam os seguidores, apoiantes, eleitores, e não os líderes, a imaginarem o sistema alternativo.

Ora, a imaginação é algo que se treina e cultiva. A maior parte das pessoas não são nada imaginativas. Em vez de imaginação, recorremos ao que já conhecemos ou às mitologias que circulam. Uma das mitologias mais disponíveis para a imaginação débil — e que é também uma mistificação — é “o Passado”. Nesse passado tudo teria sido mais puro e ordenado do que no atual “Sistema”. No caso português, esse passado é totalmente confundível com… a ditadura e o salazarismo. É o que sobra e o que está disponível na “imaginação”. E na memória — sempre traiçoeira — também.

Ao deixar em aberto a definição da alternativa ao “Sistema” contra o qual luta, Ventura e o Chega permitem e estimulam a sobreposição de “Sistema” a Democracia. E se a Democracia é o malvado “Sistema”, a alternativa é anti-democrática. Sabem os apoiantes que a ditadura não é possível na prática, e que o passado não se recupera, mas é o desejo ditatorial que os move. Quase como se de uma pulsão erótica, secreta e socialmente condenável, se tratasse.

Não é por acaso que muitas propostas do Chega, vistas isoladamente, são claramente anti-constitucionais. Ou que a vontade de revisão constitucional vai no sentido de matar o texto por dentro — à semelhança da morte da democracia por dentro quando a extrema-direita apanha boleia das eleições democráticas para chegar ao poder ou pelo menos influenciá-lo, processo que o Chega já iniciou nos Açores.

Uma democracia que deixe de defender até ao fim os Direitos Humanos ou que deixe de se apresentar como contra-maioritária na questão da defesa dos direitos de minorias ou de categorias subaternizadas pela desigualdade ou pela diferença, deixa de ser uma democracia.

É por tudo isto que o Chega não é um partido democrático nem um partido do arco constitucional. Quem aceitar precisar dele para governar ou para uma votação, vai apresentar o argumento da equivalência entre Chega, à direita, e PCP ou Bloco, à esquerda. Nada mais falso, já que estes dois partidos, goste-se ou não deles, fazem parte do arco constitucional. Não sendo o Chega um partido democrático ou do arco constitucional, o cordão sanitário à sua volta não é um ato anti-democrático, mas um ato de sanidade e de preservação da democracia.

O Chega não imagina, obviamente, que possa ganhar eleições. Mas não só imagina como planeia que dele dependa a direita para soluções governativas, legitimando-o assim passo a passo.

  • A imagem é tão cliché que não precisa ser explicada ou repetida no texto….

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Tentando desempacotar coisas desde 1960

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