Tony and Joe, their younger son. Photograph: Courtesy Decca Aitkenhead (do The Guardian)

Tive a sorte de ser pai já numa idade avançada. Madura, vá. Ser pai tem sido uma coisa absolutamente maravilhosa e calhou na altura certa, em que se começa a relativizar muuuita coisa e se percebe assim — tchan! — a importância de amar e ver crescer uma criatura. Arrogo-me o direito patriarcal — no sentido da provecta idade— de dar uns conselhos aos potenciais pais:

Não penses que a biologia te faz pai. A biologia não fala, apenas… é. ADN são as iniciais de Ácido DesoxirriboNucleico, não de, sei lá, António Dias Nogueira. …


Mark Beard, “Jeff in Pith Helmet”, s.d.

Junte-se uma turma de crianças ou os funcionários de um escritório ou um grupo de universitários e peça-se para desenharem ou recortarem uma representação do “ser humano” para colocar numa sonda espacial, na esperança de esta ser encontrada por extraterrestres.

A maioria desenhará — ou escolherá para recortar — uma figura masculina e (reconhecível como) branca.

Depois pergunte-se às pessoas porque não escolheram a figura duma mulher ou duma pessoa reconhecível como negra, por exemplo.

Haverá três tipos de reação. Em grupos de recorte mais letrado haverá reconhecimento do que está implícito na pergunta e alguns mea culpa embaraçados serão…


Três narrativas se instalam. Vêm todas da direita. Penetram os jornais controlados por interesses económicos de direita (quase uma redundância). Vão-se repetindo como frases de efeito (soundbites). Começam a circular nas ruas — e agora mais nas casas confinadas. Entram nas mentes. Tornam-se aparentes verdades insofismáveis. São elas:

  1. A culpa do crescimento do Chega é da esquerda.
  2. O Chega está para a extrema-direita como o Bloco e o PCP para a extrema-esquerda. Os extremos tocam-se. São radicalismos de direita e de esquerda, respetivamente.
  3. A pandemia, a crise social e económica, e a fragilidade do governo resolvem-se com um governo de…


  1. A pandemia, a pandemia, a pandemia;

2. A crise económica e social que agrava as desigualdades previamente existentes;

3. Essas desigualdade são, simultaneamente e sem hierarquias entre elas, económicas, laborais, de género, sexuais, étnico-raciais, com sofrimentos muito pouco ouvidos ou representados;

4. A Geringonça desconjuntou-se;

5. O PS está em governo minoritário e dependente do apoio e influência do Presidente;

6. O PSD não cumpre o papel de alternativa e está exposto à influência da extrema-direita e à dependência dela;

7. Há um perigo real de ascensão de extrema-direita.

*[E não é preciso ir muito mais longe em análises e explicações]


[Crítica publicada no Público, 7 janeiro 2021]

Robin Diangelo caracteriza assim o que cunhou como fragilidade branca: “Tendo crescido com uma sensação de superioridade profundamente interiorizada, da qual não temos consciência (…) tornamo-nos muitíssimo frágeis em conversas sobre raça. Consideramos qualquer questionamento da nossa mundividência racial um questionamento da nossa própria identidade como pessoas boas, morais. Assim, encaramos qualquer tentativa de nos ligarem a um sistema de racismo como uma ofensa moral perturbadora e injusta. O mais pequeno stresse racial é intolerável — a mera sugestão de que ser-se branco tem um significado é muitas vezes o suficiente para desencadear…


Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso no atraso que causou na despenalização do aborto e da sua posição sobre o assunto.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso na sua participação, como único representante político de relevo, numa manifestação contra a igualdade no acesso ao casamento civil.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso no comentador político de anos e anos e anos na televisão, e de como a sua candidatura à presidência da república apanhou boleia dessas autênticas “conversas em família”.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso na retórica dos “afetos” e de…


Aproxima-se o Natal. Semi-confinado em casa, procedo a arrumações de outono (bem mais necessárias, pelo fechamento invernal em casa, do que as de primavera). Sofrendo um pouco de obsessão compulsiva, tenho horror à acumulação de coisas e contribuo profusamente, não sem sentimento de culpa, para a pouco ecológica produção de lixo. Mas há sempre duas ou três coisas que, no frenesi da arrumação, me fazem parar. Gosto dessa sensação: “não, isto tenho de guardar, isto não pode ir fora”.

Foi o que aconteceu com este postal de Boas Festas que devo ter recebido em 1982 ou 1983. Foi-me enviado por…


Este trabalho de Hugo van der Ding fala por si próprio, naturalmente. Explicar o humor é sempre um exercício com pouca ou nenhuma graça. Ele é, porém, e neste caso, útil para uma exploração da linguagem e dos sentidos socialmente disputados em torno do género e da sexualidade.

“Género” é uma palavra polissémica na língua portuguesa. Pode querer dizer “género” no sentido sexual, apresentando-se mesmo, em contextos menos críticos, como sinónimo. Pode assumir o sentido que as ciências sociais e o feminismo lhe atribuíram — o de características socialmente atribuídas aos sexos. E pode, obviamente, assumir o sentido prosaico de…


As extremas-direitas nacional-populistas só não são parecidas no embrulho. Trump plasma-se numa certa América, LePen faz uma performance francesa, Bolsonaro apela a uma certa cultura popular brasileira, Erdogan namora o religioso, Putin repete o anti-cosmopolitismo. E Ventura aportuguesa.

Ventura articula várias características culturais portuguesas. Apresenta-se com um status académico e profissional prestigiante, não por acaso no Direito; não usa uma linguagem chocarreira por causa da tendência portuguesa para apreciar o “falar bem”; não aliena totalmente os que o rodeiam porque sabe que em Portugal os mundos sociais são apertados e muitas as dependências mútuas. …


De entre os diferentes períodos em que vivi nos EUA o mais marcante terá sido o primeiro. Desde logo, por ter acontecido aos 17 anos, no ano letivo de 1977–78. Mas também pelo que significa recordar, hoje, uma época já tão remota. Nessa recordação vejo, agora e à beira das eleições decisivas de 2020, muito daquilo que ainda subsiste na sociedade estadunidense mas que na época não era vertido em política do mesmo modo que hoje.

Fui como estudante de intercâmbio para Baltimore, no estado de Maryland, colocado em casa de uma família cujos filhos já frequentavam a escola que…

MVA

Tentando desempacotar coisas desde 1960

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