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[Crítica publicada no Público, 7 janeiro 2021]

Robin Diangelo caracteriza assim o que cunhou como fragilidade branca: “Tendo crescido com uma sensação de superioridade profundamente interiorizada, da qual não temos consciência (…) tornamo-nos muitíssimo frágeis em conversas sobre raça. Consideramos qualquer questionamento da nossa mundividência racial um questionamento da nossa própria identidade como pessoas boas, morais. Assim, encaramos qualquer tentativa de nos ligarem a um sistema de racismo como uma ofensa moral perturbadora e injusta. O mais pequeno stresse racial é intolerável — a mera sugestão de que ser-se branco tem um significado é muitas vezes o suficiente para desencadear uma panóplia de reações defensivas. …


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Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso no atraso que causou na despenalização do aborto e da sua posição sobre o assunto.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso na sua participação, como único representante político de relevo, numa manifestação contra a igualdade no acesso ao casamento civil.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso no comentador político de anos e anos e anos na televisão, e de como a sua candidatura à presidência da república apanhou boleia dessas autênticas “conversas em família”.

Quando penso em Marcelo Rebelo de Sousa, penso na retórica dos “afetos” e de como isso despromove a presidência para um patamar entre o monárquico e o pater familias. …


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Aproxima-se o Natal. Semi-confinado em casa, procedo a arrumações de outono (bem mais necessárias, pelo fechamento invernal em casa, do que as de primavera). Sofrendo um pouco de obsessão compulsiva, tenho horror à acumulação de coisas e contribuo profusamente, não sem sentimento de culpa, para a pouco ecológica produção de lixo. Mas há sempre duas ou três coisas que, no frenesi da arrumação, me fazem parar. Gosto dessa sensação: “não, isto tenho de guardar, isto não pode ir fora”.

Foi o que aconteceu com este postal de Boas Festas que devo ter recebido em 1982 ou 1983. Foi-me enviado por um amigo do Faial, nos Açores, caçador de baleias (de cachalotes, mais exatamente). Tinha sido um dos meus interlocutores (na altura dizia-se “informante”, enfim, abaixo verão como esta crónica é sobre a mudança dos tempos…) e do meu amigo João Carlos Lopes na pesquisa que fizemos no final da licenciatura em Antropologia. A pesquisa foi sobre a caça artesanal da baleia nos Açores, no último ano em que ela foi permitida. Seria o João a fazer a sua monografia final de licenciatura sobre o tema, já que não permitiram um trabalho a 4 mãos, mas ali num caixotezinho estão vários diários de campo recheados de entusiasmo e fascínio juvenis, bem como de memórias quentes e boas, descobertas, choques e epifanias. …


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Este trabalho de Hugo van der Ding fala por si próprio, naturalmente. Explicar o humor é sempre um exercício com pouca ou nenhuma graça. Ele é, porém, e neste caso, útil para uma exploração da linguagem e dos sentidos socialmente disputados em torno do género e da sexualidade.

“Género” é uma palavra polissémica na língua portuguesa. Pode querer dizer “género” no sentido sexual, apresentando-se mesmo, em contextos menos críticos, como sinónimo. Pode assumir o sentido que as ciências sociais e o feminismo lhe atribuíram — o de características socialmente atribuídas aos sexos. E pode, obviamente, assumir o sentido prosaico de “tipo”, “espécie” — de pessoa, de coisa, de produto artístico. …


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As extremas-direitas nacional-populistas só não são parecidas no embrulho. Trump plasma-se numa certa América, LePen faz uma performance francesa, Bolsonaro apela a uma certa cultura popular brasileira, Erdogan namora o religioso, Putin repete o anti-cosmopolitismo. E Ventura aportuguesa.

Ventura articula várias características culturais portuguesas. Apresenta-se com um status académico e profissional prestigiante, não por acaso no Direito; não usa uma linguagem chocarreira por causa da tendência portuguesa para apreciar o “falar bem”; não aliena totalmente os que o rodeiam porque sabe que em Portugal os mundos sociais são apertados e muitas as dependências mútuas. …


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De entre os diferentes períodos em que vivi nos EUA o mais marcante terá sido o primeiro. Desde logo, por ter acontecido aos 17 anos, no ano letivo de 1977–78. Mas também pelo que significa recordar, hoje, uma época já tão remota. Nessa recordação vejo, agora e à beira das eleições decisivas de 2020, muito daquilo que ainda subsiste na sociedade estadunidense mas que na época não era vertido em política do mesmo modo que hoje.

Fui como estudante de intercâmbio para Baltimore, no estado de Maryland, colocado em casa de uma família cujos filhos já frequentavam a escola que me acolheu. Esta era uma escola privada, só para rapazes. Tratava-se duma prep school, uma escola secundária que prepara os alunos para as universidades da Ivy League, onde a elite estadunidense se reproduz e cria os laços e as redes de conivência e apoio (os mais críticos diriam de compadrio e tráfico de influências). …


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Working-class men dancing tango in Rio de la Plata in 1904. Archivo General de la Nación Argentina

Qualquer pessoa envolvida em movimentos sociais pela igualdade, ou versada nas discussões das ciências sociais e humanas sobre o assunto, sabe o que é a teoria da interseccionalidade (e os seus limites, bem como as críticas a ela dirigidas ou as elaborações feitas a partir dela).

Expressemos melhor ou pior as nossas ideias, com maior ou menor irritação ou com linguagens as mais variadas, certo é que qualquer feminista negra, por exemplo, sente que a questão racial não é levada verdadeiramente a sério num meio feminista maioritariamente branco ou num contexto nacional em que as pessoas negras são subalternizadas e as suas experiências de vida invisíveis. …


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Basquiat, “Philistines”

Um comentador de direita escrevia, a propósito da polémica em torno da educação para a cidadania nas escolas, que não é admissível que se transmita às crianças que o género e a sexualidade são construções sociais, supostamente desmontáveis pelos indivíduos a seu bel-prazer.

Um outro, não de direita mas acérrimo defensor das normativas do universalismo republicano, vociferava em tempos a favor dos polícias e autarcas que, no sul de França, proibiram o uso de burkinis, argumentando que as regras islâmicas são opressoras das mulheres e criticando quem relativiza culturalmente esse facto.

Algum hipotético militante do Chega dirá um dia, perante alguma câmara de televisão, que toda a gente tem direito à sua cultura e religião mas que para a viver em pleno deverá ficar na sua terra e que, ao deslocar-se, deverá integrar-se na cultura que o recebe. (Pensando bem, não só um hipotético militante do Chega diria algo assim…). …


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As soluções que estão a ser propostas pelas universidades para este ano letivo correm sérios riscos de serem demasiado complicadas e ineficazes.

Todos achamos que o ensino universitário deve ser presencial. A universidade não é — ou não deveria ser — um lugar de mera transmissão de conhecimento. Ela deveria ser um universo de socialização, debate, e consciência cívica, algo que se consegue idealmente em relação e em co-presença. Coisa bem diferente é forçar essa co-presença na situação excecional duma pandemia. Trata-se de tomar o desejo pela realidade.

Por muito que o futuro possa vir a ser marcado por outras pandemias, é razoável pensar que esta, a da Covid-19, terá o seu fim, provavelmente dentro de um ano. Tudo o que se fizer na universidade no ano letivo que agora começa deveria ser encarado seriamente como excecional. Como? Continuando a experiência do segundo semestre de 2019–20, em que subitamente tivemos de passar para o modo online. …


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E Ana Gomes é candidata. Posto isto, onde e como estamos?

Percebe-se a utilidade da verdadeira aliança entre Governo e Presidência da República nos últimos largos meses. Já fora graças a isso que a experiência da geringonça funcionara e, depois, terá sido útil para todos nós enquanto comunidade no começo da crise da pandemia.

Esta utilidade não pode é ser vista como potencialmente estrutural, como algo desejável para a nossa democracia. Os governos são feitos a partir do parlamento eleito nas Legislativas, o presidente é eleito nas Presidenciais. Se o programa dos governos reflete, além das escolhas ideológicas de fundo, o plano de ação para a gestão da coisa pública por 4 anos, os candidatos a presidente refletem sobretudo o primeiro aspeto, o ideológico. …

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MVA

Tentando desempacotar coisas desde 1960

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